Se Lula ganhar, antipetismo vai tentar transformá-lo na Geni da política? – UOL Confere

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.
Chico Alves é jornalista, por duas vezes ganhou o Prêmio Embratel de Jornalismo e foi menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog. Foi editor-assistente na revista ISTOÉ e editor-chefe do jornal O DIA. É co-autor do livro ‘Paraíso Armado’, sobre a crise na Segurança Pública no Rio, em parceria com Aziz Filho.
Colunista do UOL
29/10/2022 16h21
Uma das composições mais fortes de Chico Buarque, “Geni e o Zepelim” conta uma história ousada para os padrões da época em que foi lançada, 1979. Na cidade fictícia, Geni era conhecida como a prostituta que “desde menina” se deitava com os personagens mais variados: os errantes, os cegos, os retirantes, os detentos, as loucas, os lazarentos. “Joga pedra na Geni!”, gritavam, à sua passagem. “Ela é feita pra apanhar! Ela é boa de cuspir! Ela dá pra qualquer um! Maldita Geni!”.
Até que uma grave ameaça se abateu sobre a cidade. De uma enorme aeronave, um invasor militar atacou prédios a tiros e ameaçava aniquilar todos os iníquos do lugar. Teve, então, um momento de compaixão: poderia mudar de ideia se Geni se deitasse com ele. A mulher resistiu, mas aqueles mesmos que a xingavam – inclusive o prefeito, o bispo e o banqueiro -foram até ela em romaria para pedir que fizesse as vontades do comandante. Passando por cima de seu asco, Geni cedeu e fez amor com o tirano, que, saciado, foi-se embora.
Bastou que o dia raiasse para que o gesto de benevolência da prostituta fosse esquecido. Aliviados por verem-se livres do perigo, os moradores voltaram a maltratá-la com antes: “Joga pedra na Geni! Ela é feita pra apanhar! Ela é boa de cuspir! Ela dá pra qualquer um! Maldita Geni!”.
A emocionante fábula de Chico Buarque tem agora paralelo em nossa política. Ameaçados pela depravação autoritária de Jair Bolsonaro, vários setores da sociedade enxergaram – depois de muita relutância — que o único político capaz de enfrentá-lo seria Luiz Inácio Lula da Silva, o mesmo que nos últimos anos foi demonizado pelos arautos lavajatistas.
Formou-se em torno do presidenciável do PT uma frente amplíssima, que inclui apoiadores impensáveis como os criadores do Plano Real, João Amoêdo, Luciano Huck, isso para não falar do próprio vice da chapa, Geraldo Alckmin. Empurrado por essa gigantesca aliança e pela lembrança das realizações de seus dois governos, Lula chega à eleição como favorito.
Se realmente vencer, que ninguém se engane: uma vez livre da ameaça imediata de Bolsonaro, muitos apoiadores voltarão a tratar o petista com o desprezo de antes. Já agora se pode identificar nos comentários de alguns políticos e jornalistas a marca do antipetismo, momentaneamente contido.
Se na Carta ao mercado Lula não fala apenas de responsabilidade fiscal, mas também de responsabilidade social, a crítica logo aparece. Se artistas fazem o L com livros, a esquerda é chamada de elitista – como se as ruas do interior do Nordeste e Norte não estivessem lotadas de povo dançando ao som do piseiro do 13. Se Lula ouve os xingamentos de Bolsonaro nos debates sem responder, está errado (teria sido fraco). Se Lula responde às baixarias do ponente, também está errado (está baixando o nível).
O clima de união em torno do presidenciável do PT, que é a marca desse fim de campanha, tende a mudar radicalmente se ele realmente for eleito.
Não se trata de dar um cheque em branco para Lula, caso ele se torne presidente. Nenhum governante merecer tal distinção. Espera-se apenas que parte da elite e da classe média tenha aprendido nesses quatro anos que o perigo do fascismo é real. Diante dessa constatação, a torcida é que qualquer crítica a um possível governo Lula seja feita levando-se em conta a saúde democrática do país, não a desonestidade ideológica que foi a tônica dos anos da Lava Jato.
Poucos daqueles políticos e jornalistas que elevaram Sergio Moro ao patamar de herói nacional fizeram autocrítica – algo que cobram tanto do PT. Que a imagem de Moro como papagaio de pirata de Bolsonaro nos últimos debates televisivos tenha provocado um choque de realidade.
Será ótimo que a partir de agora as críticas feitas a Lula partam da cabeça e não mais do fígado, como aconteceu por tanto tempo. Tratar o petista como uma Geni da política não trará nenhum benefício ao Brasil, já que – não custa lembrar – o comandante do zepelim que nos ameaça continuará à espreita logo ali.
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL
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