Pulverização de votos deixa Vitória da Conquista com apenas três deputados estaduais e sem representante federal

Terceiro maior colégio eleitoral da Bahia, Vitória da Conquista saiu das eleições de 2026 com um resultado que abriu uma discussão entre lideranças políticas locais: apesar do tamanho de seu eleitorado e da quantidade de candidatos ligados ao município, a cidade conseguiu eleger diretamente apenas três nomes com base política local para a Assembleia Legislativa da Bahia e ficou sem representante próprio na Câmara dos Deputados.
Os três deputados estaduais que permanecem como representantes conquistenses são Zé Raimundo (PT), Fabrício Falcão (PCdoB) e Tiago Correia (PSDB). O resultado contrasta com a quantidade de votos distribuída entre candidaturas locais e nomes de outras regiões e levou o candidato a deputado estadual Wagner Alves (União), marido da prefeita Sheila Lemos (União), a defender uma discussão sobre o chamado “voto útil” no município.
Fabricio Falcão
Mais votado para deputado estadual dentro de Vitória da Conquista, Wagner recebeu 33.397 votos na cidade, mas não conseguiu se eleger. No conjunto da Bahia, chegou a 53.451 votos e terminou na suplência do União Brasil. Só Conquista respondeu por 62,5% de toda a votação obtida por ele.
Após o resultado, Wagner atribuiu a redução da representação conquistense, entre outros fatores, à pulverização das candidaturas.
“Gente lançou seu nome para que eu não pudesse me eleger por Conquista. Pessoas que não tinham a menor condição de eleição, por qualquer vertente que olhasse, qualquer pesquisa que fizesse. Se precisar, falo os nomes depois. Poderíamos ter hoje no mínimo quatro deputados, independentemente do campo político”, afirmou.
Para Wagner, a fragmentação ultrapassou as diferenças partidárias. “É uma tristeza para Vitória da Conquista. Caímos para dois (ele não cita Tiago). Poderíamos estar comemorando de cinco a seis deputados em Conquista, que tem votos suficientes tranquilamente, tem tamanho para isso. E estamos amargando dois representantes na Assembleia e nenhum na Câmara. Temos que valorizar o voto útil”.
O candidato também fez uma autocrítica ao reconhecer que as disputas ocorreram dentro de seu próprio campo. “Lamento, como conquistense, não termos valorizado isso. Ficamos fazendo guerrinha interna, o meu grupo político inclusive. Às vezes, guerra de ego mesmo”, disse.
Zé cai, Fabrício cresce – Entre os eleitos, Zé Raimundo garantiu mais um mandato na Assembleia com 74.853 votos em toda a Bahia, dos quais 27.715 foram conquistados em Vitória da Conquista. Apesar da reeleição, o petista perdeu terreno em sua principal base eleitoral. Em 2022, havia recebido 32.009 votos no município. A redução foi de 4.294, ou 13,4%.
Fabrício Falcão fez o movimento contrário. O deputado do PCdoB recebeu 21.456 votos em Conquista** e terminou a eleição com 64.753 na Bahia, garantindo a reeleição. Em 2022, havia conquistado 11.315 votos na cidade. Ou seja: praticamente dobrou sua votação local, com crescimento de quase 90% em quatro anos.
O quadro poderia ter sido diferente. Além de Wagner, outro candidato com forte votação na cidade terminou na suplência. Ex-prefeito de Belo Campo, Quinho Tigre (PSD) recebeu 17.791 votos em Vitória da Conquista e 56.183 em toda a Bahia. Sua esposa, Léia de Quinho (PSD), é vereadora conquistense.
Racha na base – Os números também expuseram a divisão do campo político liderado pela prefeita Sheila Lemos. Enquanto a gestora concentrou esforços na candidatura do marido, Wagner Alves, outros nomes de centro e direita disputaram o mesmo eleitorado.
A vereadora Dra. Lara Fernandes (Republicanos), esposa do vice-prefeito Aloísio Alan (Republicanos), obteve 10.415 votos para estadual em Conquista e terminou na suplência. A disputa entre as duas candidaturas provocou um racha público entre os grupos da prefeita e do vice-prefeito.
A tensão chegou ao auge durante a passagem de Flávio Bolsonaro (PL) por Vitória da Conquista, em setembro. No aeroporto, Lara discutiu com apoiadores de Wagner, chamou Sheila de “oportunista” e, em meio à confusão, parte dos presentes chegou a gritar “Fora, prefeita”. Apesar da disputa municipal, os dois grupos estavam alinhados à candidatura presidencial de Flávio.
Outro conquistense, o deputado Tiago Correia (PSDB), também chegou às urnas após romper politicamente com Sheila. O deputado perdeu o apoio da prefeita depois que ela decidiu lançar Wagner para a Assembleia. Tiago obteve apenas 7.238 votos em Vitória da Conquista, contra 10.793 em 2022, mas conseguiu renovar o mandato graças ao desempenho no restante da Bahia, onde somou 65.969 votos.
Ainda na disputa estadual, Dr. Marcos Adriano (PDT), outro nome ligado à cidade, recebeu 4.611 votos. Já o deputado bolsonarista Diego Castro (PL), que não tem Conquista como sua principal base, conseguiu 5.852 votos no município. Castro acabou reeleito com 160.305 votos em toda a Bahia, a segunda maior votação para a Assembleia.
Sem federal – Na disputa pela Câmara dos Deputados, na qual a prefeita se dividiu entre diversos postulantes, a pulverização também ficou evidente — e produziu um resultado ainda mais significativo: Vitória da Conquista perdeu a representação direta que mantinha em Brasília.
O deputado Waldenor Pereira (PT) liderou a votação para federal na cidade, com 33.269 votos, mas os 96.378 conquistados em toda a Bahia não foram suficientes para assegurar sua reeleição. Ele terminou como suplente e deixa a Câmara após quatro mandatos consecutivos como deputado federal.
Waldenor Pereira
A vereadora Lúcia Rocha (MDB), uma das figuras mais conhecidas da política conquistense e candidata à Prefeitura em 2024, também tentou chegar a Brasília. Ela recebeu 12.159 votos no município, desempenho bem inferior aos 25.161 votos que havia conquistado na cidade quando disputou uma cadeira de deputada estadual em 2022. Terminou como suplente.
A Delegada Gabriela Garrido (PV), outro nome ligado a Vitória da Conquista, recebeu 8.201 votos no município e também não se elegeu.
Enquanto candidaturas da terra ficaram pelo caminho, nomes de fora conseguiram retirar parcelas expressivas do eleitorado conquistense. A médica Dra. Raissa Soares (PL) foi a segunda candidata a federal mais votada na cidade, com 15.608 votos, e conseguiu se eleger. Roberta Roma (PL) obteve outros 8.522 votos, enquanto Capitão Alden (PL) somou 4.299. Os três foram eleitos e mostraram a força do bolsonarismo na cidade.
Outro eleito deputado federal com boa votação em Conquista foi Carlos Muniz Filho (PSDB), que recebeu 5.022 votos no município, com o apoio do presidente da Câmara de Vereadores da cidade, Ivana Cordeiro (PL). Quem teve mais votos foi outro tucano, o vereador conquistense Diogo Azevedo (PSDB), cuja candidatura depende de decisão judicial, que ficou com 5.910.
O saldo das urnas reforça o debate levantado por Wagner Alves. Somados, apenas os cinco primeiros colocados para deputado estadual em Vitória da Conquista — Wagner, Zé Raimundo, Fabrício, Quinho e Dra. Lara — receberam mais de 110 mil votos no município. Três deles, porém, terminaram como suplentes.
















