Peça denuncia política de extermínio contra povos originários no Janeiro de Grandes Espetáculos – JC Online

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No Recife, peça de Jr. Aguiar e André Zahar revela a grandeza dos povos originários ao mostrar relação entre um jornalista e um pajé que teve o seu filho assassinado
O encontro entre um jornalista independente e um pajé que teve o filho assassinado é o ponto de partida para uma jornada de cura, resgate e autotransformação em “Në rope – A Fertilidade da Nossa Origem“. Com roteiro e atuação de Jr. Aguiar e André Zahar, o espetáculo teatral faz ainda uma denúncia da política oficial de extermínio dos povos originários latino-americanos, ao mesmo tempo que reverencia o xamanismo ameríndio.
A peça estreia neste sábado (14) e domingo (15), às 19h30, no Teatro Barreto Júnior, na Zona Sul do Recife, dentro da programação do Janeiro de Grandes Espetáculos.

Dividida em três atos, a obra se inicia na cobertura de um crime brutal ocorrido no coração da floresta amazônica após a invasão de terras indígenas pelo garimpo ilegal. O espetáculo se funda numa pesquisa iniciada a partir de autores indígenas brasileiros como o xamã ianomâmi Davi Kopenawa e o escritor Ailton Krenak.

Nando Chiappeppetta

TEATRO “Në rope – A fertilidade da Nossa Origem” tem roteiro e atuação de Jr. Aguiar e André Zahar – Nando Chiappeppetta
Nando Chiappeppetta

TEATRO “Në rope – A fertilidade da Nossa Origem” tem roteiro e atuação de Jr. Aguiar e André Zahar – Nando Chiappeppetta

O título foi extraído do livro “A queda do céu’: Në rope“, um termo apresentado por Kopenawa ao antropólogo Bruce Albert, traduzido como “princípio da fertilidade da floresta”. Ao longo do processo e de criação, Aguiar e Zahar fizeram entrevistas com pensadores e lideranças como o escritor Kaká Werá Jecupé, o cacique Marcos Xukuru, o cineasta Hugo Fulni-ô e o líder espiritual e artista Nawa Siã Huni Kuin.
Foram revisitados ainda episódios como a Guerra dos Bárbaros no Sertão do Nordeste, o Massacre de Haximu, o bombardeio aos Waimiri Atroaris na construção da Transamazônica, além de crimes mais recentes envolvendo os mesmos atores políticos. A ascensão de Evo Morales na presidência da Bolívia e a luta dos zapatistas mexicanos, por outro lado, trouxeram novas perspectivas e significados ao tema do espetáculo.
O processo de criação foi atravessado ainda pelos lamentáveis martírios do indigenista Bruno Pereira e do repórter Dom Phillips no Vale do Javari. Essa tragédia elevou a importância da defesa do jornalismo que é feita, na peça. Por sinal, Zahar e Aguiar, além de artistas, são eles próprios jornalistas profissionais.
Na peça, André Zahar interpreta Euclides Passos, profissional da mídia alternativa cujo nome faz referência ao grande jornalista e escritor Euclides da Cunha, autor de Os Sertões e Contrastes e Confrontos. Na avaliação do artista, talvez nada seja tão importante, diante das máquinas de fake news e projetos antidemocráticos, quanto falar em verdade e memória.

Nando Chiappeppetta

TEATRO “Në rope – A fertilidade da Nossa Origem” tem roteiro e atuação de Jr. Aguiar e André Zahar – Nando Chiappeppetta
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TEATRO “Në rope – A fertilidade da Nossa Origem” tem roteiro e atuação de Jr. Aguiar e André Zahar – Nando Chiappeppetta

“O jornalismo é uma atividade que, com todas suas limitações, trabalha com um critério, uma metodologia e uma ética na busca pela verdade. E a verdade, uma vez revelada, nunca deixa de provocar transformações. Por isso, é uma atividade arriscada para quem a pratica, principalmente em regimes autoritários”, frisa Zahar, lembrando que o Brasil é um dos países mais perigosos do mundo para os profissionais da imprensa. “Na essência, porém, o jornalista é um contador de histórias, um historiador do presente”, emenda.
O espetáculo também se integra o movimento neoxamânico, que busca a expansão da consciência e o resgate de uma prática espiritual ancestral indissociável da natureza. Jr. Aguiar, que dirige o espetáculo e atua interpretando alguns personagens, afirma que o xamanismo é um sistema de magia de onde nasceu a própria arte, a medicina e a religião. “Tudo que manifesta as forças da natureza parte deste ponto primordial”, explica.
Para Aguiar, a obra é contemporânea ao denunciar o extermínio de um povo. “Fazer arte é expressar nosso tempo, é encarnar sentimentos e ideias que estão latejando no corpo da sociedade. Neste sentido, ‘Në rope’ também é um manifesto de liberdade e justiça”.
SERVIÇO
“Në rope – A fertilidade da nossa origem”
Onde: Teatro Barreto Júnior (R. Est. Jeremias Bastos, Pina)
Quando: neste sábado (14) e domingo (15), a partir das 19h30
Quanto: R$ 60 R$ 30 (meia), à venda na Guiche Web e na bilheteria do teatro 1h30 antes do espetáculo
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